Você se sentiu, digamos, trocada pelos estudos do seu pai?
O mundo sempre girou em torno dele. Isso desde que eu me conheço por gente. As coisas pra ele giram em torno dele. O importante é ele, em todos os sentidos. Então não foi uma nem duas vezes que meu pai comprava livros, gastava o dinheiro que ele recebia em livros, e nós passando necessidades, com a luz e água cortadas, ações de despejo. E ele sempre frequentando bons restaurantes, boas livrarias.

Isso foi em que ano, e vocês moravam onde?
Foi mais ou menos nos anos 1970. Eu nasci em 1969. Eu me lembro de, pequena, morando em Ubatuba, onde meu pai era hippie, minha mãe era hippie, e eu sem escola. E isso perdurou a vida toda. Então anos 1980, na escola de astrologia, e depois, anos 1990, lá na seita islâmica ocultista que ele montou. A vida toda foi um descaso, assim.

E quando mudou? Você disse que aos 14 anos foi morar com uma tia, como foi essa saída de casa?
Quando meu pai casou de novo, em 1981. Isso foi quando aconteceu a tentativa de suicídio da minha mãe. A gente estava despejado, passando necessidade, e meu pai já com a “namoradinha”, que virou esposa dele. Quando minha irmã, filha da minha madrasta, tinha entre um ano e meio e dois anos, a situação de convivência na casa com meu pai, minha irmã e minha madrasta estava insuportável. Ele viajava para dar aulas de astrologia.
Ela, por ter sido de uma família rica, sempre foi criada com empregada, mordomo e motorista. De repente, casou com um cara que não estava nem aí pra casa, pra família, pra alimentação dos filhos. Então o que ela fazia era pegar o carro dela, ir pra casa dos parentes dela, principalmente pra vó dela que mora num bairro super nobre em São Paulo com motorista, mordomo e cozinheira. Passava o dia lá com a filha dela, e eu jogada numa casa sem comida, sem nada, sem escola, sem roupa limpa.

Então assim, eu aprendi a me cuidar desde muito cedo. Claro, eu aprendi sozinha. Eu não sabia lavar uma roupa direito. Eu sabia fazer uma comidinha, um macarrão. Eu aprendi sozinha. Por conta do abandono que eu tive.

Nesse período, depois da tentativa de suicídio da minha mãe, meu pai internou minha mãe no hospício. E pegou meus três irmãos e jogou na casa da minha vó materna. Jogou lá. Fiquei anos sem ter contato com meus irmãos por conta disso, meu pai não estava nem aí com eles, e me “catou” porque eu era mais velha, eu sempre fui muito chegada a ele, muito próxima

Mas quando chegou nessa situação com a minha madrasta e o meu pai, eu realmente me vi em situação de desespero. Eu tinha 13 pra 14 anos, sem comida, sem roupa. Eu vivia de roupa doada. Era um absurdo porque os alunos doavam, tinham dó. Não foi uma nem duas vezes que as pessoas me levaram para cortar meu cabelo, para tirar piolho da minha cabeça. Porque eu era criada jogada. Era um abandono.

Você percebia isso na época, Heloisa? Você falou que era muito próxima dele, você ainda tinha uma ligação emocional com ele nessa época?
Sim, eu sempre gostei muito do meu pai. Eu não tenho ódio do meu pai. As pessoas acham que tudo que eu faço é por ódio, por raiva, não é. Meu objetivo não é esse, nunca foi esse. Já tive problemas com ele, e todos os que eu tive realmente tentei solucionar. Sempre telefonei pra tentar conversar, não é esse o problema, meu objetivo não é esse. Assim, a “menininha abandonada” que hoje tem 50 anos de idade e é “revoltada” porque o “papai não deu colo”. Não é isso.
A questão toda é essa influência que ele tem no governo e, por consequência, no país. A dimensão que tomou o nome dele no Brasil. E vem vendendo uma imagem que não existe. Não existe. Ele construiu esse Olavo de hoje. Até 2017, eu realmente tinha achado que ele tinha mudado como pessoa nesse sentido de ser mais humano, cuidar mais da família dele, mas não.
Quando houve um problema lá com o pessoal do filme, que eu resolvi tomar partido – do diretor de fotografia que foi humilhado, sacaneado mesmo pelo Olavo e o diretor do filme.